{"id":2383,"date":"2021-04-24T14:52:56","date_gmt":"2021-04-24T17:52:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sebonovafloresta.com.br\/blog\/?p=2383"},"modified":"2024-12-07T07:45:09","modified_gmt":"2024-12-07T10:45:09","slug":"dom-quixote-loucura-ou-razao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sebonovafloresta.com.br\/blog\/dom-quixote-loucura-ou-razao\/","title":{"rendered":"Dom Quixote: loucura ou raz\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"font-size:18px\">Em um per\u00edodo de inova\u00e7\u00e3o e diversidade na fic\u00e7\u00e3o espanhola, a liberdade de parodiar os famosos romances de cavalaria era tudo o que o poeta castelhano Miguel de Cervantes precisava para trabalhar no que seria um dos livros mais importantes da literatura mundial. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">O livro &#8220;<em>Don Quijote de la Mancha<\/em>&#8220;, publicado em 1605, indica que, ap\u00f3s anos de leitura e estudo de romances de cavalaria, o personagem teria enlouquecido, resolvendo tornar-se, fora de \u00e9poca, um cavaleiro andante, que estava fazendo falta ao mundo, para desfazer os agravos, endireitar os tortos, emendar as injusti\u00e7as, reduzir os abusos e saldar as d\u00edvidas. Em s\u00edntese, um vision\u00e1rio, que se atribuiu a miss\u00e3o de consertar o mundo. O caso parece ser de doen\u00e7a mental, marcada por ideias delirantes e alucina\u00e7\u00f5es, sendo o portador capaz de ser simultaneamente a antiga e a nova pessoa, e viver ao mesmo tempo em seu mundo imagin\u00e1rio e no mundo real.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">A hist\u00f3ria passa-se na Mancha, no in\u00edcio do s\u00e9culo XVII, em que reinava na Espanha a Casa de Habsburgo, l\u00e1 conhecida como a dos \u00c1ustrias. Era uma monarquia absoluta, com forte influ\u00eancia da Igreja Cat\u00f3lica. A sociedade espanhola da \u00e9poca era rigidamente dividida em classes: o clero, a nobreza, a burguesia e o povo mi\u00fado. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Dom Quixote era crist\u00e3o velho, sem mistura de sangue. Era um fidalgo letrado, pertencente \u00e0 pequena nobreza, com uma propriedade rural cuja renda lhe garantia o sustento, sem que precisasse trabalhar. Na pena de Gustave Dor\u00e9, era um aristocrata, alto e magro, que montava um corcel, o Rocinante. Ao contr\u00e1rio, seu escudeiro, Sancho Pan\u00e7a, era um lavrador baixo e gordo, analfabeto, movendo-se sobre um jumento.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Al\u00e9m disso, Dom Quixote era c\u00f4nscio dessa desigualdade, reputando-a natural. N\u00e3o se insurgia contra a monarquia, a Igreja ou a hierarquia social. Os ventos do liberalismo, a reclamar a igualdade das pessoas, s\u00f3 viriam a soprar no s\u00e9culo seguinte, j\u00e1 na monarquia da Casa de Bourbon, ainda hoje reinante na Espanha. Diz-se, portanto, que Dom Quixote est\u00e1 bem situado no espa\u00e7o e no tempo, o que permite aferir a sua normalidade.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Entretanto, tal quadro muda durante as suas aventuras, em que investe contra moinhos de vento, tomando-os por gigantes. Ou quando interv\u00e9m em favor de galeotes, reputando-os inocentes, em afronta \u00e0 justi\u00e7a real. Ou quando dissolve uma prociss\u00e3o de frades, para liberar o andor, que lhe parecia uma dama subjugada. Em tais casos, sobressai uma vis\u00e3o distorcida da realidade, a pautar as suas a\u00e7\u00f5es, que ent\u00e3o careceriam de m\u00e9rito, por decorrerem de doen\u00e7a mental. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Para superar o problema, h\u00e1 quem atribua a Dom Quixote a simula\u00e7\u00e3o da loucura, para justificar as suas a\u00e7\u00f5es. Mas, tal mal\u00edcia n\u00e3o casa com a pureza de car\u00e1ter do personagem. Por\u00e9m, existe uma fronteira n\u00edtida entre a normalidade e a doen\u00e7a mental? Machado de Assis, em seu conto \u201cO Alienista\u201d, mostra que tal limite n\u00e3o \u00e9 objetivo, tanto que vai variando ao longo da narrativa, ao crit\u00e9rio movedi\u00e7o do Dr. Sim\u00e3o Bacamarte, quem deveria ou n\u00e3o ser encerrado na Casa Verde, o hosp\u00edcio de Itagua\u00ed. Primeiro, quem apresentava desvios de personalidade e n\u00e3o seguia um padr\u00e3o, depois quem mantinha a regularidade nas a\u00e7\u00f5es e possu\u00eda firmeza de car\u00e1ter. Por fim, como ningu\u00e9m tinha uma personalidade perfeita, exceto ele pr\u00f3prio, o alienista conclui ser o \u00fanico anormal e decide trancar-se sozinho na Casa Verde.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 bizantina. Se doente mental, Dom Quixote n\u00e3o seria respons\u00e1vel por suas a\u00e7\u00f5es no mundo real, nem seus m\u00e9ritos lhe poderiam ser atribu\u00eddos. Contudo, mesmo que privado de lucidez, em certos momentos, Dom Quixote jamais toma decis\u00f5es moralmente inaceit\u00e1veis, mantendo sempre a sua honestidade. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Louco ou n\u00e3o, quem pode julgar?<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Para muitos estudiosos, Dom Quixote \u00e9 um marco entre a linha t\u00eanue que existe entre a sanidade e a loucura. Acima disso, marca a import\u00e2ncia da insanidade em tempos mon\u00f3tonos. Acreditando em seu pr\u00f3prio romance de cavalaria, Dom Quixote consegue mudar sua pr\u00f3pria vida. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">O personagem acreditou por muito tempo que esses romances de cavalaria eram mais importantes do que sua pr\u00f3pria vida, de que sua realidade n\u00e3o valia a pena ser vivida, apesar de todo o luxo e bem-estar que podia ter \u00e0quela \u00e9poca, ainda n\u00e3o valiam a emo\u00e7\u00e3o de viver livre e plenamente. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">O companheirismo de Sancho Pan\u00e7a, que permaneceu ao lado de Dom Quixote mesmo sabendo que suas ilus\u00f5es n\u00e3o eram reais, tamb\u00e9m foi motivo de inspira\u00e7\u00e3o para diversos escritores. Afinal, onde estaria o her\u00f3i sem seu fiel escudeiro? O verdadeiro her\u00f3i pode ser tanto quem toma a frente, como quem est\u00e1 l\u00e1 para apoiar e proteger, independente de tudo. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Enfim, Dom Quixote leu e compreendeu as fa\u00e7anhas dos livros de cavalaria como a \u00fanica possibilidade de apreender o mundo. E quando o mundo n\u00e3o correspondia, era-lhe necess\u00e1rio corrigi-lo, para que a \u00fanica leitura poss\u00edvel, de acordo com os ideais da nobre cavalaria, fosse mantida. O not\u00e1rio que testemunhou os \u00faltimos momentos de Don Quixote afirmou: vimos que ele morreu com uma calma e uma maneira nunca vista em nenhum cavaleiro descrito nos livros de cavalaria. Alonzo Quijano, o Bom, morreu em paz ap\u00f3s ter deixado a incerteza da realidade, visitado a loucura da certeza, e, finalmente, ter-se resignado ao fato de que qualquer abordagem da realidade \u00e9 sempre uma constru\u00e7\u00e3o. Quer dizer, n\u00e3o h\u00e1 uma realidade \u00faltima, um mito \u00fanico.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Miguel de Cervantes pertence \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o intelectual de Erasmo de Roterdam, uma vela rapidamente apagada pelos frios e dogm\u00e1ticos ventos da Contra-Reforma, cujas obras foram expurgadas pelo an\u00e1tema da Inquisi\u00e7\u00e3o, e cujo testamento permanecer\u00e1 um segredo. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Dom Quixote deambula pelo universo de Erasmo de Roterdam no qual qualquer verdade \u00e9 suspeita, e tudo banha na incerteza. E o romance, tal como o apreendemos, \u00e9 o resultado do encontro da sabedoria de Erasmo de Roterdam com a loucura de Dom Quixote. Ao renunciar a um mito fundador, Miguel de Cervantes anuncia tamb\u00e9m, com s\u00e9culos de avan\u00e7o, certos prop\u00f3sitos qu\u00e2nticos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 apreens\u00e3o da realidade, bem como alguns pressupostos psicanal\u00edticos relativos \u00e0s fun\u00e7\u00f5es dos mitos, \u00e0 realidade ps\u00edquica, \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o do psiquismo, e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do del\u00edrio como tentativa de cura. Dom Quixote \u00e9 curado, recordemos, quando, aliviado, compreende que n\u00e3o h\u00e1 realidade a apreender: o romance nos incomoda por ser de uma atualidade desconcertante.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">Dom Quixote n\u00e3o se limita a exprimir o nascimento do romance moderno. Ele mostra, tamb\u00e9m, que a realidade s\u00f3 pode ser aproximada quando renunciamos a defini-la de uma vez por todas. Atrav\u00e9s de seu Dom Quixote, Miguel de Cervantes ultrapassa o sabido e transgride, no sentido de uma verdade at\u00e9 ent\u00e3o pensada como sagrada e como garantia de um saber (e, por conseguinte, de um poss\u00edvel controle) sobre o mundo. A transgress\u00e3o produz momentos de virada sem que exista, evidentemente, uma transgress\u00e3o \u00faltima, o que equivaleria a recriar o mito de um conhecimento absoluto. Que toda ci\u00eancia deve estar sempre aberta para questionamentos e revis\u00f5es \u00e9 uma ideia cara tanto a Sigmund Freud, quanto a Karl Popper.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um per\u00edodo de inova\u00e7\u00e3o e diversidade na fic\u00e7\u00e3o espanhola, a liberdade de parodiar os famosos romances de cavalaria era tudo o que o poeta castelhano Miguel de Cervantes precisava para trabalhar no que seria um dos livros mais importantes da literatura mundial. 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